30 de jan de 2012

maravilhas



A Cultrix mantinha uma coleção interessante, bem boazinha até, em 24 volumes, chamada Maravilhas do conto ...: universal, fantástico, policial, feminino, de aventuras, de natal, alemão, inglês, norte-americano, francês, russo, japonês, português etc.

Os organizadores variavam: o próprio Diaulas Riedel, dono da editora, ou Fernando Correia da Silva, mas raros volumes traziam alguma referência ao tradutor. Havia algumas coisas francamente ridículas: por exemplo, em várias coletâneas constava "Tradução revista por T. Booker Washington". Já comentei isso em algumas ocasiões no Não Gosto de Plágio, em especial num caso a propósito de Kafka, aqui.

Neste levantamento dos contos de Poe no Brasil, nosso autor aparece em várias Maravilhas da Cultrix: do conto amoroso, do conto policial, do conto americano, do conto de aventuras, do conto fantástico e do conto universal - e sistematicamente sem qualquer referência ao(s) tradutor(es).

A coisa fica tremendamente aborrecida, pois é um apanhado de traduções já existentes, mas as edições não trazem qualquer crédito de licenciamento ou nota de autorização de uso. E, sabendo que são traduções anteriores, não sei até que ponto me animo em gastar um dinheirão para comprar todos esses exemplares apenas para descobrir qual foi a tradução utilizada pela Cultrix.

Sei, por exemplo, que "Descida do Maelstrom", em Maravilhas do conto de aventuras (Cultrix, 1961), é a tradução de Milton Amado e Oscar Mendes (Globo, 1944), porque comparei as duas e constatei que são idênticas.

Mesma coisa em relação a Maravilhas do conto fantástico, onde o conto de Poe selecionado foi "Silêncio", em texto idêntico (apenas com a grafia atualizada) ao que se encontra na famosa "traducção brasileira" anônima que saiu pela H. Garnier em 1903 e foi reproduzida em 1941, 1943, 1954 (e depois em 1972 e 1988) em outras editoras, com nomes variados de tradutores.

Se pelo menos a Cultrix tivesse se abeberado exclusivamente nas traduções de Milton Amado e Oscar Mendes, seria muito mais simples. Mas, em vista destes dois exemplos, está-nos vetada essa hipótese.

Em todo caso, sinto-me razoavelmente segura em não incluir nenhuma das Maravilhas de Cultrix em minha pesquisa sobre as traduções de Poe no Brasil. Até alguma eventual indicação em contrário, sou do parecer de que tais edições podem compor a fortuna editorial e comercial de Poe no Brasil - mas sua fortuna tradutória, não.